Opinião
O Silêncio que Ensina: Um Tributo a Dona Maria Benedita
Opinião
Por André Barcelos
Hoje, o tempo, em sua marcha inexorável, levou Dona Maria Benedita Martins de Oliveira. Para muitos, o nome pode soar familiar pela associação imediata ao seu filhomais conhecido, o saudoso Dante de Oliveira, o homem que ousou sonhar com um Brasil mais justo e democrático ao propor as Diretas Já. Contudo, reduzir a existência de Dona Maria à de “mãe de Dante” seria uma injustiça, uma miopia que a efemeridade do presente não pode nos impor. A partida de uma matriarca como ela não é apenas o fim de uma vida, mas o fechamento de um ciclo, o silenciar de uma fonte de sabedoria que nutriu não apenas uma família, mas, de forma silenciosa e constante, os valores que sustentam – ou deveriam sustentar – uma sociedade.
Dona Maria era uma reserva moral. Em um mundo cada vez mais ruidoso e efêmero, ela representava a solidez da retidão, da serenidade e da resiliência. Professora por vocação, sua pedagogia não se limitava às salas de aula. Ela educava pelo exemplo, pela postura tranquila e pela sabedoria que, como bem observado por quem teve o privilégio de sua companhia, não se explica apenas pela longevidade. Havia nela uma profundidade que transcendia o tempo, uma força que se manifestava não em grandes discursos, mas no gesto contido, no olhar sereno e na palavra certa, dita no momento exato.
É impossível dissociar a trajetória de Dante de Oliveira da influência de sua mãe. Em um lar onde o pai, Sebastião de Oliveira, era uma figura pública de posições políticas firmes, foi no colo de Dona Maria que, certamente, os ideais de justiça e honestidade foram forjados. Se o pai lhe servia de “bússola” em termos de seriedade, como o próprio Dante afirmava, a mãe era o porto seguro, a guardiã dos valores inegociáveis. As grandes decisões políticas, os embates no Congresso, a coragem de enfrentar um regime autoritário, tudo isso encontra raízes na formação moral que ela, como matriarca, soube cultivar. Ela era o centro silencioso, a força invisível que o impulsionava, a certeza de que, independentemente das tempestades políticas, havia um lar e um código de honra a zelar.
Em um momento sombrio da nossa sociedade, em que a violência contra a mulher atinge patamares alarmantes, a vida de Dona Maria Benedita surge como um contraponto necessário e urgente. Ela personifica a força feminina que constrói, que educa, que sustenta. Uma força que não se impõe pela violência, mas pela autoridade moral, pela sabedoria e pelo amor. A sua existência nos lembra que a verdadeira força de uma sociedade reside no respeito e na valorização de suas mulheres, de suas mães, de suas educadoras. O legado de Dona Maria é um farol que nos guia em meio à escuridão, um lembrete do poder transformador da figura materna.
A família, para Dona Maria, era o alicerce de tudo. Em um clã de sete filhos, cada um com sua trajetória e personalidade, ela era o elo, o ponto de convergência. A sua casa era mais do que uma estrutura de tijolos; era um santuário de valores, um espaço onde a ética e o respeito eram a base de todas as relações. O seu legado não está em monumentos ou discursos, mas na integridade de sua família e nos valores que, como sementes, ela plantou em todos que a cercavam.
Quem teve a oportunidade de trocar “dois dedos de prosa” com Dona Maria sabe que sua sabedoria era um presente. Ela nos deixa um legado silencioso, mas perene. Um legado que nos ensina que as maiores transformações começam no seio da família, que a verdadeira força reside na serenidade e que a retidão é o único caminho possível. A efemeridade do tempo não apagará a sua luz. Pelo contrário, a sua partida nos convida a refletir sobre o que realmente importa, sobre os valores que nos definem como indivíduos e como sociedade. Que o seu exemplo continue a nos inspirar a construir um mundo mais justo, mais digno e mais humano. Um mundo onde os ensinamentos de Dona Maria Benedita continuem a ecoar por gerações.
Opinião
Quando os olhos falam
Por Kamila Garcia
Em uma sociedade marcada pela pressa, pelo excesso de ruído e pela superficialidade das interações, resiste uma linguagem silenciosa que, muitas vezes, diz mais do que qualquer discurso: o olhar.
Desde os primeiros momentos da vida, o ser humano aprende a se comunicar por meio da sensorialidade. O toque acolhe, o som orienta, os aromas despertam memórias e o paladar traduz experiências. No entanto, enquanto os outros sentidos processam o mundo exterior, é no olhar que a subjetividade encontra seu palco principal. Mais do que a visão — função biológica de captar luz —, o olhar é um ato psíquico: ele interpreta, revela e devolve o mundo carregado de intenção.
Não por acaso, Leonardo da Vinci afirmou que os olhos são “as janelas da alma”. A frase atravessa os séculos com frescor porque traduz uma evidência cotidiana: o olhar expõe as emoções que a retórica tenta camuflar. Medo, insegurança, afeto, dor e esperança encontram nos olhos um canal direto e, frequentemente, involuntário de manifestação. É a verdade nua que escapa pelo brilho da pupila ou pelo peso de uma pálpebra.
Mais do que instrumento de percepção, o olhar é um exercício de presença. Em tempos de relações mediadas por telas, onde o contato visual é substituído pelo consumo de pixels e notificações, a capacidade de sustentar o olhar do outro tornou-se um gesto raro — e, por isso mesmo, revolucionário. Enquanto a tela é estática e segura, o olho no olho exige disponibilidade, vulnerabilidade e, sobretudo, coragem. É o momento em que deixamos de observar um objeto para reconhecer um sujeito.
A recusa desse encontro não é apenas um detalhe comportamental; é, em muitos casos, um sintoma do distanciamento emocional e da dificuldade em lidar com a própria interioridade. Como observou Carl Jung: “Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta”. O olhar, portanto, é bidirecional — ele reflete para o mundo o grau de consciência que temos de nós mesmos.
Nesse contexto, o olhar ocupa um lugar singular entre os sentidos. Ele organiza a realidade externa ao mesmo tempo em que traduz aquilo que não cabe na gramática. Os olhos falam quando a voz silencia. Revelam quando o discurso falha. E, com frequência, denunciam o que o ego tenta ocultar.
Resgatar o valor do olhar é resgatar a autenticidade das relações humanas. É reconhecer que, para além da performance das aparências e do filtro das redes, existe uma verdade que se manifesta de maneira simples, direta e inevitável.
Porque, no fim, quando os olhos falam, eles não apenas se comunicam. Eles revelam.
*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.
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