Opinião
Insistir no que já acabou não é fidelidade, é medo
Opinião
Por Soraya Medeiros
Nossa cultura ergueu um altar ao “para sempre” — e, sob ele, sacrificamos a beleza natural dos fins. Vivemos obcecados pela ideia de permanência: amor eterno, sucesso perpétuo, juventude sem prazo de validade. Aceitar o encerramento de ciclos soa como fracasso quando, na verdade, é um dos gestos mais lúcidos e corajosos do nosso tempo.
Há uma expectativa silenciosa — e sufocante — de que projetos, relações e identidades permaneçam inalteráveis. Mudança é tratada como instabilidade, quando é, na prática, a linguagem mais fiel da vida. Basta observar o mundo: tudo se organiza em ritmos, estações e passagens. Nada permanece fixo. O movimento é a única permanência possível.
A grande dificuldade contemporânea não está em começar, mas em encerrar. Fomos treinados para acumular, resistir e insistir. Quase nunca para finalizar. O medo do ponto final se disfarça de lealdade, segurança ou nostalgia. Mas sustentar o que já terminou não é fidelidade — é apego travestido de virtude.
No campo profissional, isso aparece na permanência em funções esvaziadas, mantidas apenas pelo status. O corpo percebe antes da mente: cansaço crônico, irritação constante, a náusea que anuncia a segunda-feira. É o profissional que sustenta o cargo pelo peso da estrutura, enquanto sua vitalidade já saiu de cena há tempos.
Nos vínculos afetivos, o cenário se repete. Relações preservadas mais pelo hábito do que pelo afeto. Conversas protocolares. Silêncios acumulados. A intimidade cede lugar a uma convivência funcional, porém emocionalmente estéril. Permanecemos em grupos de mensagens por lealdade a versões antigas de nós mesmos, temendo o vazio que o simples “sair do grupo” provoca.
Carl Jung sintetizou esse dilema ao afirmar que não é possível viver o entardecer da vida com o programa da manhã. O que foi essencial em uma fase pode tornar-se inadequado em outra. Insistir no que já cumpriu sua função transforma a existência em um museu: bonito por fora, morto por dentro.
Reconhecer transições exige coragem. É escolher encerrar capítulos antes que o esgotamento, a doença ou a ruptura o façam de forma violenta. Finalizar, mesmo com dor, é um gesto de respeito consigo. Adiar o fim, muitas vezes, é adiar a própria vida.
Mais importante do que perguntar por que tudo termina é refletir sobre como encerramos. Quando o fim nasce do medo, vira derrota. Quando nasce da consciência, vira maturidade. Todo encerramento cria um vazio — e é justamente esse espaço que permite que algo novo exista. A vida não suporta vazios prolongados; ela os preenche, desde que haja espaço disponível.
A sabedoria não está em lutar contra os fins, mas em compreendê-los como parte do fluxo. Entre o que fomos e o que ainda seremos, existe um território de travessia. É nesse espaço — livre da tirania do “para sempre” — que a vida, em sua forma mais honesta, acontece.
*Soraya Medeiros é jornalista.
Opinião
Biometano: a energia do futuro exige governança desde o presente
O agronegócio brasileiro vive um momento de transformação. A busca por maior eficiência produtiva, redução de custos e atendimento às exigências ambientais têm impulsionado investimentos em soluções sustentáveis capazes de gerar valor econômico e, ao mesmo tempo, reduzir impactos ambientais. Esse cenário está alinhado ao movimento global de busca por alternativas que contribuam para a redução das emissões de carbono e o aumento da eficiência energética.
Nesse contexto, o biometano desponta como uma das alternativas mais promissoras para o setor. Produzido a partir da purificação do biogás gerado pela decomposição de resíduos orgânicos, o biometano possui características semelhantes às do gás natural e pode ser utilizado para abastecimento de veículos, geração de energia e suprimento de processos industriais. Em outras palavras, aquilo que antes era tratado como resíduo passa a ser transformado em energia e oportunidade de negócios.
No agronegócio, especialmente em atividades ligadas à pecuária, à agroindústria e à produção de alimentos, a geração de resíduos é inevitável.
A grande mudança está na forma de encará-los. O que antes representava um passivo ambiental pode se tornar um ativo estratégico, capaz de gerar receita, reduzir custos operacionais e fortalecer o posicionamento sustentável das empresas.
O potencial econômico do biometano é expressivo. Além de aproveitar uma matéria-prima de baixo custo, produtores e empresas podem reduzir despesas operacionais, criar novas oportunidades de receita e fortalecer sua posição em um mercado cada vez mais orientado pela sustentabilidade.
A relevância do tema é tamanha que a Lei nº 14.993/2024, conhecida como Lei do Combustível do Futuro, passou a incentivar a expansão dos combustíveis renováveis e a mobilidade de baixo carbono no Brasil, reconhecendo o biometano como uma das soluções estratégicas para a transição energética nacional.
Mas os benefícios vão muito além da geração de energia. A produção de biometano transforma passivos ambientais em ativos econômicos, incorporando à atividade produtiva os princípios da economia circular. Resíduos que antes representavam custos de tratamento e descarte passam a integrar um ciclo produtivo capaz de gerar valor, reduzir impactos ambientais e aumentar a competitividade.
Além disso, a crescente agenda ESG (Environmental, Social and Governance) tem impulsionado investimentos e oportunidades de financiamento voltados a projetos sustentáveis. Empresas que demonstram compromisso efetivo com a gestão ambiental, a redução de emissões e a governança corporativa tendem a conquistar melhores condições de mercado, fortalecer sua reputação e ampliar o acesso a novos parceiros comerciais.
Entretanto, os benefícios do biometano não se limitam aos aspectos econômicos e ambientais. Questões relacionadas ao licenciamento ambiental, contratos de fornecimento, responsabilidade civil e ambiental, exigências regulatórias, gestão de riscos e conformidade normativa fazem parte da realidade de empreendimentos dessa natureza. Ignorar esses fatores pode comprometer a segurança jurídica do investimento e gerar passivos capazes de neutralizar os benefícios inicialmente esperados.
A estruturação adequada de um projeto de biometano passa pela identificação de riscos, elaboração de contratos robustos, definição de responsabilidades, implementação de controles internos e monitoramento contínuo da conformidade legal e regulatória. Trata-se de uma atuação preventiva, voltada à proteção do investimento e à sustentabilidade do negócio no longo prazo.
O Brasil reúne condições excepcionais para se tornar uma potência mundial na produção de biometano, especialmente em razão da força do agronegócio e da ampla disponibilidade de biomassa. As empresas que compreenderem esse movimento e se prepararem adequadamente estarão mais aptas a aproveitar as oportunidades que surgem com a transição energética e com a crescente demanda por soluções sustentáveis.
A diferença entre um projeto promissor e uma verdadeira vantagem competitiva está na forma como ele é estruturado, gerido e protegido. O futuro da energia já começou. E ele exige planejamento, responsabilidade, governança e visão estratégica.
Luciana Serafim, advogada associada ao escritório NWADV. Especialista em Governança e Compliance.
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