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Artigo

2026: enfrentar ou repetir?

Williamon da Silva Costa
Acadêmico de direito

Publicado em

Opinião

Todo início de ano se repete um ritual conhecido: planos, promessas, metas e discursos de recomeço. Há uma expectativa quase mágica de que a virada do calendário seja suficiente para transformar a vida. Mas os meses passam, a rotina se impõe, e pouco a pouco as pessoas retornam aos velhos hábitos, aos mesmos ciclos e às mesmas dores. Não por falta de desejo, mas porque mudar é difícil, profundamente difícil.

A mudança real não acontece no discurso, nem no entusiasmo momentâneo. Ela exige reforma íntima. E isso está longe de ser algo leve ou confortável. Ressignificar dores, perdas e partidas implica encarar aquilo que foi empurrado para debaixo do tapete por anos. Abandonar o velho dói porque o conhecido, ainda que tóxico, oferece uma falsa sensação de segurança. O novo, por sua vez, é instável, exige coragem, responsabilidade e disposição para lidar com o imprevisível.

Romper laços tóxicos não significa apenas afastar pessoas. Significa desmontar versões de si mesmo construídas para agradar, suportar ou sobreviver. Virar a página não apaga a história, obriga a relê-la com honestidade. Seguir em frente implica abrir mão de desculpas, de zonas de conforto e, muitas vezes, da identidade moldada em torno da dor ou para não desagradar alguém próximo.

Por isso, mudar é cortar na própria carne o que for necessário. É sair da zona de conforto, aceitar o desconforto como parte do crescimento. É aprender a dizer “não” quando preciso, sem culpa. É impor novos limites às pessoas ao redor e entender que isso não é dureza e nem egoísmo, mas respeito consigo mesmo. Quem não estabelece limites acaba vivendo para atender expectativas alheias, enquanto adia indefinidamente a própria vida e os próprios sonhos.

Nada disso tem relação com religião, fé ou discurso motivacional vazio. Trata-se de saúde mental. Trata-se de cuidado. Ainda assim, o preconceito segue profundamente enraizado. Procurar um psicólogo já é visto por muitos como sinal de fraqueza. Um psiquiatra, pior ainda. Admitir em público, ou dentro da própria família, que se precisa de ajuda emocional ainda soa como fracasso. O resultado é um silêncio que adoece e mata pouco a pouco.

Os casos de suicídio aumentam ano após ano, e a sociedade insiste em fingir que não vê. As políticas públicas, quando aparecem, se limitam quase exclusivamente ao “Setembro Amarelo”: campanhas pontuais, discursos genéricos e pouca ação concreta ao longo do restante do ano. Falta estrutura na rede de saúde, falta continuidade, falta enfrentamento real de um problema que já se tornou crônico.

No ambiente de trabalho, a crueldade se aprofunda. Dores emocionais são tratadas como “frescura”, “fraqueza” ou “falta de resiliência”. Funcionários adoecem em ambientes tóxicos, sob cobranças abusivas, assédio moral e desumanização, e acabam descartados como se fossem o problema. Raramente se questiona o quanto esses ambientes contribuem diretamente para o colapso mental de quem ali trabalha.

Existem dores silenciosas. Elas não gritam, mas corroem. Consomem a energia, o sentido e, muitas vezes, a vontade de seguir e viver. Força interior não é aguentar tudo calado, é reconhecer quando algo está pesado demais para ser carregado sozinho. Coragem não é suportar o insuportável; é enfrentar o que precisa ser encarado.

Por isso, proponho que 2026 seja um ano de guinada. Não mais um ciclo de promessas vazias, mas um movimento consciente de mudança. Que as pessoas coloquem o pé no freio de uma rotina acelerada com resultado adoecedor. Que olhem para dentro de si mesmas com honestidade. Que enfrentem, face a face, aquilo que vem sendo adiadoou escondido há tempo demais.

Se nada for encarado de verdade, 2026 repetirá o mesmo cronograma de 2025. Será apenas mais um ano de promessas frustradas, que ficaram no papel, enquanto a vida segue pesada, cheia de dores e pedidos urgentes de mudança empurrados para depois.

Que 2026 não seja apenas mais um número no calendário. Que seja um ponto de inflexão. Porque viver no automático tem um custo alto, e ele vem sendo pago, há tempo demais, com saúde e em muitos casos, com a própria vida.

Deixo a reflexão: em 2026 vamos enfrentar ou repetir?

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Opinião

Quando os olhos falam

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Por Kamila Garcia

Em uma sociedade marcada pela pressa, pelo excesso de ruído e pela superficialidade das interações, resiste uma linguagem silenciosa que, muitas vezes, diz mais do que qualquer discurso: o olhar.

Desde os primeiros momentos da vida, o ser humano aprende a se comunicar por meio da sensorialidade. O toque acolhe, o som orienta, os aromas despertam memórias e o paladar traduz experiências. No entanto, enquanto os outros sentidos processam o mundo exterior, é no olhar que a subjetividade encontra seu palco principal. Mais do que a visão — função biológica de captar luz —, o olhar é um ato psíquico: ele interpreta, revela e devolve o mundo carregado de intenção.

Não por acaso, Leonardo da Vinci afirmou que os olhos são “as janelas da alma”. A frase atravessa os séculos com frescor porque traduz uma evidência cotidiana: o olhar expõe as emoções que a retórica tenta camuflar. Medo, insegurança, afeto, dor e esperança encontram nos olhos um canal direto e, frequentemente, involuntário de manifestação. É a verdade nua que escapa pelo brilho da pupila ou pelo peso de uma pálpebra.

Mais do que instrumento de percepção, o olhar é um exercício de presença. Em tempos de relações mediadas por telas, onde o contato visual é substituído pelo consumo de pixels e notificações, a capacidade de sustentar o olhar do outro tornou-se um gesto raro — e, por isso mesmo, revolucionário. Enquanto a tela é estática e segura, o olho no olho exige disponibilidade, vulnerabilidade e, sobretudo, coragem. É o momento em que deixamos de observar um objeto para reconhecer um sujeito.

A recusa desse encontro não é apenas um detalhe comportamental; é, em muitos casos, um sintoma do distanciamento emocional e da dificuldade em lidar com a própria interioridade. Como observou Carl Jung: “Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta”. O olhar, portanto, é bidirecional — ele reflete para o mundo o grau de consciência que temos de nós mesmos.

Nesse contexto, o olhar ocupa um lugar singular entre os sentidos. Ele organiza a realidade externa ao mesmo tempo em que traduz aquilo que não cabe na gramática. Os olhos falam quando a voz silencia. Revelam quando o discurso falha. E, com frequência, denunciam o que o ego tenta ocultar.

Resgatar o valor do olhar é resgatar a autenticidade das relações humanas. É reconhecer que, para além da performance das aparências e do filtro das redes, existe uma verdade que se manifesta de maneira simples, direta e inevitável.

Porque, no fim, quando os olhos falam, eles não apenas se comunicam. Eles revelam.

*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.

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