Artigo Opinião
Gestora ou ditadora?
Opinião
O primeiro ano de governo de Flávia Moretti (PL) foi um verdadeiro festival de desmandos, improvisos e absurdos institucionais. Em Várzea Grande, governar parece ter deixado de ser um exercício de escuta para se transformar em um teste permanente de força. A cidade assistiu a uma administração marcada menos por consensos, planejamento e entregas estruturantes e mais por conflitos políticos, crises institucionais e episódios que tensionaramperigosamente os limites da democracia local.
Eleita sob o discurso da ruptura, da moralização e do enfrentamento de problemas históricos, sobretudo, o colapso crônico no abastecimento de água. Flávia iniciou o mandato cercada de expectativa popular. Doze meses depois, o saldo é um paradoxo difícil de ignorar: alta exposição política, baixa estabilidade administrativa, pouquíssimos resultados entregues e crescente desgaste de imagem. A pergunta que se impõe já não é apenas sobre estilo de gestão, mas sobre método de poder: Flávia Moretti governa, gerencia ou é um fantoche de outras pessoas em Várzea Grande?
O primeiro sinal de alerta surgiu cedo. O rompimento traiçoeiro e precoce com o vice-prefeito Tião da Zaeli, o único que acreditou em Flávia e abriu as portas da política local para ela, expôs uma fragilidade central do governo: a incapacidade de conviver com divergências internas e a capacidade de manutenção de acordos políticos firmados, como ela mesmo fez dentro da 5º Subseção da OAB-MT, quando era presidente. Politicamente transformado em adversário, o vice passou a simbolizar um governo de uma Prefeita que rompe alianças e pontes (por conveniência pessoal) com a mesma facilidade com que distribui discursos sobre renovação, mas não promove mudanças.
O conflito se espalhou rapidamente pela Câmara Municipal quando ela tentou interferir na eleição da mesa diretora para derrubar o vereador Wanderley Cerqueira. Aprefeita passou boa parte do ano envolvida em embates públicos, ameaças de CPIs, comissões processantes e trocas de acusações. O resultado foi uma governabilidade permanentemente tensionada, que consumiu energia institucional e desviou o foco daquilo que deveria ser prioridade: governar a cidade.
Se nos bastidores a crise é política, nas ruas ela se tornou concreta e real. Em dezembro de 2025, durante um evento oficial da prefeitura, a líder comunitária Kelly Daiane Gomes de Souza foi algemada e colocada em uma viatura da Guarda Municipal após ousar fazer algo aparentemente inadmissível para a gestão: questionar a prefeita sobre a falta de água em seu bairro, ironicamente, em uma cerimônia que prometia resolver o problema.
A cena, amplamente registrada e compartilhada nas redes sociais, chocou parte da população. Ainda que a prefeita tenha determinado a liberação da manifestante minutos depois após a intercessão da vereadora Rosy Prado, o episódio deixou uma marca profunda. O poder reagiu à crítica com força institucional. A mensagem implícita e perigosamente pedagógica foi clara: manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Não por acaso, o episódio reacendeu outro debate sensível: o uso da Guarda Municipal. Pouco depois deuma denúncia formal ter acusado a prefeita de utilizar a GM para fins pessoais, especialmente para sua segurança privada, o que motivou um pedido de cassação posteriormente rejeitado pela Câmara. A rejeição, porém, não encerrou o debate. Pelo contrário, consolidou a percepção de que existe uma zona cinzenta entre interesse público e conveniência do poder, frequentemente explorada pela gestão.
O primeiro ano também foi marcado por questionamentos éticos recorrentes. Acusações de nepotismo culminaram na exoneração do marido da prefeita de um cargo estratégico, uma saída que não nasceu de súbito zelo moral, mas de pressão política e questionamentos públicos. A leitura foi inevitável: os limites éticos só se tornam visíveis quando a pressão se torna insustentável.
Na mesma trilha, avançaram investigações sobre o uso de slogan e identidade visual da gestão em uniformes escolares, apontando possível propaganda institucional irregular. Episódios distintos, mas conectados por um mesmo fio condutor: a dificuldade crônica de separar gestão pública de autopromoção pessoal na política.
Administrativamente, a instabilidade virou método. Em menos de um ano, mais de dez secretários foram substituídos, transformando o primeiro escalão em uma espécie de carrossel político. A dança das cadeiras comprometeu o planejamento, atrasou projetos e reforçou a sensação de improviso permanente. Gestões sólidas erram e corrigem; gestões instáveis trocam pessoas sem corrigir rumos.
Para piorar essa dança das cadeiras, ela nomeou Sílvio Fidelis para Secretário de Governo, mesmo ele sendo antigo aliado de Kalil. Isso gerou fortes críticas do Presidente do PL, Ananias Filho, que alegou publicamente que a nomeação feriu o discurso de renovação usado na campanha. Retornando a velha prática de reciclar nomes já conhecidos do poder local, em nome de uma suposta governabilidade e resolução de sofrimento pessoal da prefeita. Ao trazer para o governo alguém que ela mesma atacou eleitoralmente, a prefeita desrespeita o voto de quem acreditou em mudança e reforça a sensação de que, em Várzea Grande, o discurso muda, mas o método segue o mesmo. Lembrando que não tenho nada contra Sílvio Fidelis, mas contra a incoerência das ações de Flávia, que muda de opinião, como muda de secretários.
Enquanto isso, a crise da água, símbolo máximo da campanha, segue como o maior passivo da gestão. Anúncios não faltaram. Ordens de serviço e decretos de calamidade, também. O que continua faltando é água nas torneiras. Em muitos bairros, a escassez segue sendo rotina e combustível para a frustração popular e para os protestos contidos na base da força armada.
Nesse cenário, declarações como a de que Flávia Moretti seria “a melhor prefeita da história de Várzea Grande” soaram menos como autoconfiança e mais como deboche institucionalizado diante da realidade enfrentada pela população.
A comunicação oficial do governo escolheu o confronto como estratégia. Críticas da imprensa, de vereadores e de lideranças comunitárias passaram a ser tratadas como perseguição política ou ataques pessoais por meio de uma Secretária de Comunicação feroz e que se autoproclamou para mim em tom confissão a melhor SECOM da história de VG. Soma-se a isso um longo histórico na justiça eleitoral, constantemente relembrado por adversários, e o discurso ético da gestão começa a soar cada vez mais decorativo.
O traço mais revelador do modelo centralizador veio, curiosamente, de dentro do próprio governo. Um assessor afirmou publicamente que as secretarias não possuem autonomia para ordenar sequer as próprias despesas, pois tudo precisa passar pelas mãos do Secretário de Fazenda e guardião da chave do cofre municipal. Centralização elevada à enésima potência, travestida de controle.
Diante de tudo isso, a pergunta permanece no ar, incômoda e insistente:
Gestora ou ditadora?
O problema não é errar. Governar é, inevitavelmente, lidar com erros. O problema é não tolerar o contraditório, reagir à crítica com força, tratar o dissenso como ameaça e confundir autoridade com autoritarismo. Puro ego em ação, como uma perfeita Leonina que é!
Porque os contrastes são claros:
Gestores democráticos convivem com protestos. Autoritários os reprimem.
Gestores explicam decisões. Autoritários impõem.
Gestores constroem pontes. Autoritários acumulam inimigos.
Várzea Grande não precisa de uma prefeita blindada por slogans, guardas ou discursos autoglorificantes. Precisa de liderança madura, diálogo real e respeito ao espaço público, inclusive quando ele é ocupado por vozes incômodas.
O primeiro ano de Flávia Moretti foi menos sobre gestão e mais sobre disputa de poder. Ainda há tempo para corrigir rumos. Mas isso exigirá algo que, até agora, tem faltado de forma evidente:
Menos força, mais política; menos reação, mais gestão.Porque entre governar e controlar, a linha é tênue. E, neste governo, ela vem sendo cruzada com frequência preocupante.
No fim, a história não perguntará quem gritou mais alto, mas quem realmente governou.
Opinião
Quando os olhos falam
Por Kamila Garcia
Em uma sociedade marcada pela pressa, pelo excesso de ruído e pela superficialidade das interações, resiste uma linguagem silenciosa que, muitas vezes, diz mais do que qualquer discurso: o olhar.
Desde os primeiros momentos da vida, o ser humano aprende a se comunicar por meio da sensorialidade. O toque acolhe, o som orienta, os aromas despertam memórias e o paladar traduz experiências. No entanto, enquanto os outros sentidos processam o mundo exterior, é no olhar que a subjetividade encontra seu palco principal. Mais do que a visão — função biológica de captar luz —, o olhar é um ato psíquico: ele interpreta, revela e devolve o mundo carregado de intenção.
Não por acaso, Leonardo da Vinci afirmou que os olhos são “as janelas da alma”. A frase atravessa os séculos com frescor porque traduz uma evidência cotidiana: o olhar expõe as emoções que a retórica tenta camuflar. Medo, insegurança, afeto, dor e esperança encontram nos olhos um canal direto e, frequentemente, involuntário de manifestação. É a verdade nua que escapa pelo brilho da pupila ou pelo peso de uma pálpebra.
Mais do que instrumento de percepção, o olhar é um exercício de presença. Em tempos de relações mediadas por telas, onde o contato visual é substituído pelo consumo de pixels e notificações, a capacidade de sustentar o olhar do outro tornou-se um gesto raro — e, por isso mesmo, revolucionário. Enquanto a tela é estática e segura, o olho no olho exige disponibilidade, vulnerabilidade e, sobretudo, coragem. É o momento em que deixamos de observar um objeto para reconhecer um sujeito.
A recusa desse encontro não é apenas um detalhe comportamental; é, em muitos casos, um sintoma do distanciamento emocional e da dificuldade em lidar com a própria interioridade. Como observou Carl Jung: “Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta”. O olhar, portanto, é bidirecional — ele reflete para o mundo o grau de consciência que temos de nós mesmos.
Nesse contexto, o olhar ocupa um lugar singular entre os sentidos. Ele organiza a realidade externa ao mesmo tempo em que traduz aquilo que não cabe na gramática. Os olhos falam quando a voz silencia. Revelam quando o discurso falha. E, com frequência, denunciam o que o ego tenta ocultar.
Resgatar o valor do olhar é resgatar a autenticidade das relações humanas. É reconhecer que, para além da performance das aparências e do filtro das redes, existe uma verdade que se manifesta de maneira simples, direta e inevitável.
Porque, no fim, quando os olhos falam, eles não apenas se comunicam. Eles revelam.
*Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.
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