Política
ALMT homenageia pessoas que lutam contra o racismo estrutural
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A Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) poderá instituir a Comenda Tereza de Benguela ou Zumbi dos Palmares para homenagear homens e mulheres que dão causa ao combate ao racismo estrutural e a toda e qualquer manifestação que deixe de levar em consideração o ser humano, a pessoa, por causa da cor de sua pele ou por causa de seus antepassados.
Esse foi um dos anúncios feitos pelos deputados Juca do Guaraná e Silvano Amaral, ambos do MDB, durante Sessão Especial que homenageou 121 pessoas e autoridades com Moção de Aplauso por direta ou indiretamente terem contribuído e defendido ações contrárias ao racismo estrutural ou qualquer outro tipo de manifestação que leve em consideração a cor da pele de qualquer pessoa e consequentemente terem defendido Mato Grosso e o Brasil, pois a altivez de uma Nação está em respeitar seus povos, culturas, ancestralidades e tudo que traduz a miscigenação existente em um país de mais de 200 milhões de pessoas.
Em 13 de maio de 2025, completaram-se 137 anos da abolição da escravatura no Brasil, que ocorreu com a assinatura da Lei Áurea em 1888.
“Mesmo caminhando para quase 150 anos desde que os negros deixaram de ser tutelados, marginalizados, criminalizados e explorados, ainda se percebe uma indiferença, um tratamento que ainda nos distância de outros seres humanos, apenas por causa da cor de nossa pele”, disse o deputado Juca do Guaraná falando em nome da Assembleia Legislativa de Mato Grosso em concorrida solenidade que contou com a presença de diversas autoridades, como o desembargador Juvenal Pereira e a juíza Renata do Carmo Evaristo Parreira, ambos descendentes de pretos e pardos.
“Quis o destino que o deputado Silvano Amaral (MDB) suplente e no exercício do mandato estivessem conduzindo essa sessão especial em conjunto comigo, pois ele também é descendente de pretos, de pardos, ou seja, somos negros e o melhor, descobri através de um estudo do professor Pedro Reis que sou descendente de quilombolas, do Quilombo Sangradouro”, disse Juca do Guaraná.
A Sessão Solene exaltou o Hino Nacional que retrata a riqueza de um país construído com muitas mãos e grande parte delas, mãos negras, contou a apresentação do Grupo de Dança da Associação Cultural Flor do Campo que demonstra ser a cultura e a história do Brasil e de Mato Grosso, o maior legado da força e da presença negra desde a sua descoberta do país.
Também contou com a apresentação do humorista Cumpadre Vevé que brincou com a discriminação racial, mas deixou seu recado de que o Brasil é o que é porque soube unir forças e deixou de dar valor a conceitos de superioridade racial, tanto que a solenidade foi proposta por dois deputados negros e pardos e que homenageou diversas pessoas entre elas um desembargador e uma juíza, demonstrando que as barreiras do passado, ficaram justamente no passado.
O representante da Câmara de Cuiabá, vereador Daniel Monteiro (Repúblicanos) que realizou recentemente Sessão Solene no Legislativo Municipal da Capital do Estado assinalou que existe uma dívida gigantesca e mundial pela segregação racial imposta a seres humanos, independente da cor da pele de cada um.
“O que vale é a cor do sangue e todos nós, brancos, pretos, pardos, amarelos, seja l;á a cor que for, temos sangue vermelho e por essa cor que deveríamos nortear nossas vidas e não pela escuridão da indiferença e da falta de respeito”, disse o vereador Daniel Monteiro que compactua com a proposta de unir esforços e recursos de emendas parlamentares estaduais e municipais para retirar do papel, propostas que visam combater, extirpar o racismo estrutural.
Em respeito ao Dia da Consciência Negra, comemorado no dia 20 de novembro e que em Cuiabá desde o ano de 2000 se tornou feriado municipal e em 2002, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso transformou a data em feriado estadual, foi realizada a referida Sessão Especial para ficar delineado que no Parlamento de Mato Grosso existem negros e pardos e que as manifestações como essa precisam se repetir cada vez mais para ficar claro e tácito que a cada dia que se passa, é preciso resgatar o Brasil de seus erros do passado, para que o futuro seja melhor e voltado para todos indistintamente.
O deputado Silvano Amaral lembrou que chegou nas décadas de 60 e 70 em Sinop, 500 km de Cuiabá, a região que estava começando a se desenvolver, era em sua grande maioria composta por brancos.
“Eu era criança e brincava com outras crianças, mas sempre sobrava para mim, fazer o papel de bandido. Então a gente percebe que desde cedo existe uma certa diferenciação que somente será mudada com educação, com políticas de igualdade e principalmente se preservando o respeito mútuo”, assinalou o deputado estadual.
Juca do Guaraná lembrou também das diferenças na sua relação enquanto criança com os demais amigos e disse ter convicção de que muito já se conquistou e mudou em relação a desigualdade ou ao racismo estrutural, mas é pouco em relação a tudo que os pretos, pardos, negros sofreram durante séculos em todo o mundo, “pois não foi algo apenas no Brasil e sim no mundo”, assinala.
Segundo a cientista política e professora do Instituto Federal de Mato Grosso, Christiany Fonseca, atos como aquela sessão especial promovida pelo Poder Legislativo do Estado de Mato Grosso, atendendo a um pedido do deputado Juca do Guaraná que é negro, se demonstra importante e fundamental, pois provoca discussões, avaliações e principalmente estimula as pessoas de que as minorias também tem direitos iguais aos demais e o que importa não é a quantidade e sim a qualidade dos debates e da inserção na educação de uma maneira em geral dos direitos e deveres de todos e do que é certo e errado, ainda mais, quando todos são seres humanos.
“Não se trata de um dia de celebração, de comemoração e sim de reafirmação da luta contra o racismo estrutural, pois já passamos da fase de quem manda e de quem obedece pela cor que se tem”, disse a cientista.
Para a presidente da Academia Mato-grossense de Letras (AML), Luciene Carvalho, a primeira negra a assumir a função, os negros são a maioria da população e mesmo assim precisam reafirmar sua condição, não de superioridade, mas sim de igualdade. Para ela somente deixará de existir a diferenciação, quando todos compreenderem, que sem os pretos e pardos, ou seja, os negros, o Brasil não estaria ainda se encontram, pois “essa Nação foi construída com mãos, suor, força e dedicação dos negros”, explicou.
O ex-vereador por Cuiabá, Rinaldo Almeida, autor da lei que transformou 20 de Novembro em dia da Consciência Negra em Cuiabá, juntamente com o então vereador Aurélio Augusto, o grande marco para se mudar a história do Brasil e a participação dos negros está na Lei 10639/03 que é um importante instrumento para combater a desigualdade promovida pelo racismo e a intolerância religiosa.
“A Educação é transformadora e somente ela pode inserir nas novas geração, o sentimento de igualdade, de respeito ao próximo independente de sua cor, raça, credo”, disse Rinaldo falando para o secretário de Educação de Cuiabá, presente ao evento, Amauri Monge.
Já para Manoel Francisco da Silva Júnior, presidente do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (CEPIR), o titular da Pasta de Educação de Cuiabá tem efetiva participação na política de desigualdade racional, pois ele mesmo, é presidente por ter sido indicado pelo secretário.
“Nossa luta não para porque ainda existem aqueles que não nos reconhece como iguais, mas é preciso compreender que foi inserido durante séculos que a dominação de raça se dava pela cor, mas essa sessão especial no Parlamento Estadual partindo de dois deputados de cor, demonstra que isto está mudando”, disse o presidente que também foi um dos homenageados.
Juca do Guaraná assinalou durante a Sessão Especial que todos os homenageados naquela sessão também deveriam se sentir ainda mais prestigiados pois ele estava dividindo com eles o Título de Cidadão Vilabelense.
“Vila Bela da Santíssima Trindade que já foi capital de Mato Grosso é uma cidade que tinha como uma de suas principais características a quase totalidade de sua população da raça negra, já que a região era predominantemente de quilombolas”, explicou Juca do Guaraná assinalando que vai busca e utilizar o seu titulo de Cidadão Vilabelense.
A ex-vice prefeita de Cuiabá, Jacy Proença também defende a tese de que se faz necessários aos pretos, pardos, negros, enfim a todos que se sentem excluídos, ocuparem espaços, defenderem suas raízes e principalmente lutarem pela verdade dos fatos e pelo resgate da história.
“As transformação estão acontecendo. Já evoluímos e muito. Mas as coisas não acontecem no tempo que desejamos e sim no tempo que é para acontecerem e o que depende de nós é não esmorecer e continuar buscando instrumentos e meios de mudar as futuras gerações”, frisa Jacy Proença.
Para a Superintendente de Promoção e Articulação de Políticas Públicas para as Pessoas com Deficiência da Casa Civil do Governo do Estado de Mato Grosso, Tais Augusta de Paula, ser negra é ser resistente a exclusão.
“Me enche de orgulho ver um preto homenageando uma preta. Sou o que desejo ser”, disse ela lembrando sua luta por ser triplamente invisível, já que além de preta, mulher é portadora de deficiência, “pois respeito deve ser o mesmo para todos”, assinala.
Tais Augusta lembra que diversidade deveria ser regra e na exceção.
Atendendo um apelo do deputado Juca do Guaraná, Renata do Carmo Evaristo, juíza de Direito em Mato Grosso e que faz parte do Comitê de Equidade Racial do Tribunal de Justiça assinala que é preciso quebrar os estigmas do racismo estrutural e lembrou que em sua família apenas duas pessoas, o pai e ela conseguiram superar as adversidades pessoais e profissionais, já que o pai foi delegado de polícia e ela juíza de Direito e defendeu a ocupação de espaços de Poder para que o negro seja reconhecido como qualquer outras pessoa.
“A toga não me blinda de sofrer racismo. Já chegaram em meu local de trabalho e me questionaram pessoalmente quando a juíza iria chega”, comentou Renata do Carmo Evaristo.
Por sua vez o desembargador do Tribunal de Justiça, Juvenal Pereira da Silva disse ter orgulho de sua raça e cor e que a conscientização e a educação tem o poder de mudar séculos de erros, falhas e abusos que são coisas da natureza humana mas que com certeza podem ser alteradas, melhoradas e principalmente inseridas de forma clara e transparente para as futuras geração. Ele frisou acreditar que a humanidade quando quer aceita as transformações vivenciadas em todo o Mundo e citou a cultura Afro Brasileira que já transformou a vida de centenas de milhares de pessoas.
“A cultura Afro Brasileira já fez celebridades no mundo da música, dos esportes, da cultura, das artes, então basta ter um olhar diferenciado para se perceber que as coisas mudaram, que as coisas melhoraram, tanto que hoje os crimes de racismo causam revolta na maioria das pessoas e são mais intensamente denunciados a Justiça, as autoridades policiais, enfim não é aceita por grande maioria das população”, frisou o desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso que é magistrado de carreira.
O magistrado citou ainda o Projeto Vozes Ancestrais que celebra a ancestralidade, reconhecendo as raízes afro-brasileiras e promovendo o combate ao racismo entre crianças, adolescentes e adultos. Segundo Juvenal Pereira, esses foram os pilares que marcaram o encerramento da segunda etapa do Projeto Vozes Ancestrais 2025 – Riqueza Cultural dos Povos Quilombolas e que vai continuar difundindo e demonstrando que somos todos um único povo.
Antes de concluir suas palavras, o desembargador pediu licença para o deputado Juca do Guaraná para frisar que as coisas mudaram tanto, que na atualidade, o Poder Judiciário é quem vai ao encontro da população e não o contrário.
“Sempre foi dito que os que necessitavam bastava procurar a Justiça que a encontraria. Hoje a Justiça está indo até o cidadão. Não mais esperamos ser acionados. Estamos sempre prontos para intervir”, assinalou.
Os deputados Juca do Guaraná e Silvano Amaral agradeceram a presença maciça das pessoas ao evento e lembraram que sempre haverá uma mão negra em toda e qualquer ação, pois “somos um país de maioria de pretos, pardos, negros, enfim somos um país de brasileiros que independente de cor, raça ou credo acreditam na igualdade e no direito para todos indistintamente.
Homenageados do CEPIR – Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial
ADEMAR SALES MACAÚBAS
ALUÍZIO DE AZEVEDO SILVA JÚNIOR
ARLETE PEREIRA LEITE
CELIA CRISTINA SOARES
GILDA PORTELLA ROCHA
JANAINA YUMI OSAKI
JÚLIA RODRIGUES NUNES CAFÉ
KAMAIRAI SANDERSON TAPIRAPÉ
KARINE FÁTIMA DE MORAES ASSUNÇÃO
LÚCIA SHIGUEMI IZAWA KAWAHARA
LUCINEIA GOVEIA DOS ANJOS
MANOEL FRANCISCO DA SILVA JÚNIOR
MARCOS TULIO COSTA GATTAS
MARIA DAS DORES RAMOS LOPES DA SILVA
OTAIR RODRIGUES RONDON FILHO
PEDRO REIS DE OLIVEIRA
POLIANNA DE SOUZA CORRÊA
ROBERTA DE ARRUDA CHICA
RODRIGUES SCHNEIDER DE AMORIM SOUZA
ROSANA MANFRINATE
SILVIANE RAMOS LOPES DA SILVA
TAFNYS HADASSA DA CUNHA FERREIRA
TÂNIA PAULA DA SILVA
YAM EVANGELISTA CHAGA
Demais Homenageados pelos relevantes serviços prestados a Mato Grosso e a Igualdade Racial
ABDANY LOURENA PROFETA DA CRUZ
ADRIELLY DE JESUS BOTELHO DE OLIVEIRA
AIDA BATISTA DA CRUZ LOPES
ALEXSANDRO BISPO DE SOUZA
ALEXSANDRO DO NASCIMENTO RIBEIRO
AMELIA HERMENGARDA JESUS CORTEZ
ANDERSON DOS SANTOS
ANTÔNIO BENEDITO DE JESUS
AURELIO AUGUSTO GONÇALVES DA SILVA JUNIOR
BEATRIZ RODRIGUES OLIVEIRA
BRAYON JOSÉ RONDON MACIEL
CAIRO SANTOS DE LARA
CARLOS ROBERTO DOS SANTOS JÚNIOR
CECÍLIA BARCELOS DA SILVA
CENIRA BENEDITA EVANGELISTA
CINARA THAÍS SILVA DE BRITO SOBRINHO
CLAUDIA CRISTINA FERRAZ DE SOUZA
CLEYTON NORMANDO DA FONSECA
DANIEL SOUZA SILVA MONTEIRO
DANIELLY SALES NASCIMENTO
DANILO GONÇALVES DE CAMPOS
DAYANE THAIS LEITE SOARES
Desembargador JUVENAL PEREIRA DA SILVA
DOUGLAS CAMARGO DE ANUNCIAÇÃO
DR. BENTO EPIFANIO DA SILVA FILHO
EDEVANDE PINTO DE FRANÇA
EDSON MAURO MAIA DE VEIGA
ELIETE JESUS PORTO
ELIZÂNGELA TENÓRIO PEREIRA ROSA
ELIZEU DE FARIAS SILVA
ELTON CASTRO RODRIGUES DOS SANTOS
ESTHER TONY SILVA DE MORAES
EVA DA SILVA SANTOS E JESUS
EVERALDO COELHO DE BRITO
ÉVERTON NEVES DOS SANTOS
FABIA ELAINE FERREIRA DE MELO
FERNANDO HENRIQUE RODRIGUES DA SILVA
GONÇALO RODRIGUES DA SILVA
IAGO PINHO DE OLIVEIRA
ISABEL GARCIA DE FARIAS SILVA
ISAIAS GONÇALVES DE ALMEIDA
IVO GREGÓRIO DE CAMPOS
JACQUELINE FRANÇA DE LIRA
JACY RIBEIRO DE PROENÇA
JOÃO BOSCO DA SILVA
JOÃO VICTOR MIRANDA DA SILVA
JOICY MARI SOUZA DOS SANTOS
JONATAN SEVERO CHAVES
JOYCE LILIAN LOMBARDI
JUAREZ FRANÇA VENTURA DA ROCHA
Juíza RENATA DO CARMO EVARISTO PARREIRA
JULIANA TEODORO PEREIRA
JUSSARA CURVO LAURENTINO
JUSTINO ASTREVO DE AGUIAR
KARINE ARRUDA DUARTE
KATLIN OLIVEIRA CALMON
KLEBER ALVES DE LIMA
LAURA NATASHA OLIVEIRA ABREU
LEILA MARIA DE ASSUNÇÃO
LORRANY SILVA RODRIGUES
LUANA BATISTA DOS SANTOS
LUCAS SANTOS CAFÉ
LUCIA APARECIDA DOS SANTOS
LUCIENE JOSEFA DE CARVALHO
LUSSAM LIMA DA SILVA SANTOS
LUZINETE DA SILVA MAGALHÃES
MARIA DAS NEVES AIARDES NETA POICHEE
MARIA EUNICE AIARDES FERRER
MARIA MARCILEIDE VENTURA GOMES
MARIANA THAÍS SILVA DE BRITO
MÁRIO ANTÔNIO DOS SANTOS JUSTO
MATHEUS DE ARAÚJO
MIRIAM APARECIDA DE FRANÇA
MIRIAN CÁSSIA AZEVEDO DE GÓES ARRUDA
NALANDA MARIA RAMOS
NATHIENNE APARECIDA SILVA PINTO
ONIRCE SANTANA DE ARRUDA
PAOLLA CASSIA DE OLIVEIRA
PAULO HENRIQUE DA SILVA
PEDRO AUGUSTO FERREIRA ALVES
RAYNARA SANTOS E JESUS
RINALDO RIBEIRO DE ALMEIDA
ROSA BETANIA VELOSO SILVA DE BRITO
SALETE MOROCKOSKI
SHIRLEY BARBOSA DO NASCIMENTO
Deputado SILVANO FERREIRA DO AMARAL
SONIA APARECIDA SILVA
SOPHIA LORENA DE SOUZA
SOPHIE SILVA CAMPOS
TAÍS AUGUSTA DE PAULA
VALDOMIRO LUIZ DE ARRUDA
VICENTY DA SILVA BORGES
VINÍCIUS SANTOS FERNANDES
VIVIANE ANGÉLICA AZEVEDO DE GOÉS
VONISSON GOMES DOS SANTOS
WAGNER SANTOS
WESLEY ELTON DO NASCIMENTO.
Fonte: ALMT – MT

Política
Expedição fluvial chega a Cuiabá e debate futuro do Rio Cuiabá com pescadores e comunidades ribeirinhas

A reunião da expedição fluvial no Rio Cuiabá, liberada pelo deputado estadual Wilson Santos (PSD), chegou na capital de Cuiabá, nesta terça-feira (10), no Centro de Eventos Beira Rio, na comunidade São Gonçalo Beira Rio. O encontro reuniu pescadores, moradores de comunidades ribeirinhas, representantes de órgãos públicos e especialistas para discutir a situação do rio e os impactos enfrentados pela categoria pesqueira.
Durante a abertura do encontro, o parlamentar agradeceu a presença do público e ressaltou a importância do diálogo com as comunidades tradicionais. “Quero agradecer todos os presentes que atenderam ao convite. Vamos trocar uma ideia sobre o Rio Cuiabá, ouvindo vocês que já foram escutados em outros momentos. A maioria aqui são pescadores, pessoas que ajudaram a construir Cuiabá. Independente do patrimônio cultural, aqui está a nossa raiz”, afirmou.
Wilson Santos destacou que a expedição percorrerá cerca de 900 quilômetros pelo Rio Cuiabá e voltou a tratar da proposta de construção de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), empreendimento apresentado pela empresa Maturati, que previa a instalação de estruturas em um trecho de cerca de 190 quilômetros do rio, com capacidade de geração total de 156 megawatts (MW) de energia. Segundo ele, o projeto não foi aprovado e nem acatado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema).
“Esse projeto foi indeferido pela Sema. Nas comunidades que visitamos até agora, todas disseram não para a construção de hidrelétricas no Rio Cuiabá. Essa já é a quinta comunidade que consultamos e todas mantêm a mesma posição”, relatou o deputado.
Ele afirmou que a expedição tem justamente o objetivo de manter o debate público sobre o tema. “Estamos repetindo essa descida pelo rio para que um assunto importante como esse não caia no esquecimento e passe despercebido. Estamos acompanhando esse processo tanto na esfera estadual quanto federal”, disse.
Outro tema central da reunião foi o atraso no pagamento do seguro-defeso aos pescadores de Mato Grosso. O benefício, pago durante o período da Piracema, garante renda aos pescadores durante o tempo em que a pesca é proibida. O parlamentar criticou a situação enfrentada pela categoria.
“Essa lei do Transporte Zero já trouxe prejuízos para os pescadores. Agora vem mais essa situação do não pagamento do seguro-defeso. Os pescadores ficaram quatro meses sem trabalhar, podendo exercer a atividade apenas oito meses no ano. Estamos lutando e tenho esperança de que possamos reverter essa situação”, afirmou o parlamentar.
Ele também questionou o baixo número de adesões ao programa estadual Repesca, que prevê auxílio aos pescadores. “Os pescadores de Mato Grosso têm muito receio de aderir ao Repesca e isso interferir no direito à aposentadoria especial no INSS. Isso acaba gerando uma interrogação na cabeça dos pescadores e provocou uma baixíssima adesão ao programa”, observou.
A pescadora Sandra Maria Oliveira, que é atual presidente da Colônia de Pescadores Z-1, em Cuiabá, manifestou preocupação com a situação enfrentada pelos pescadores. “Quanto às hidrelétricas, somos totalmente contra. Hoje, nossa maior preocupação é o seguro-defeso. Os pescadores ficaram quatro meses sem trabalhar e sem previsão de receber. Eles já são penalizados com a Lei do Transporte Zero. Precisamos de ajuda”, afirmou.
O superintendente do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) de Mato Grosso, Gerson Delgado, explicou que o pagamento do benefício depende de questões técnicas, orçamentárias e políticas do governo federal. Filho de pescador, ele relatou sua ligação com a atividade pesqueira. “Eu tenho certeza da dor da atividade pesqueira, porque já vivi isso na pele. Meu pai era um simples lavrador de Santo Antônio de Leverger e buscou na pesca uma alternativa para sustentar a família. Ele vivia de segunda a segunda na beira do rio e conseguiu criar dez filhos, todos com nível superior. Por isso estou aqui hoje para servir”, ressaltou.
Conforme Delgado, o governo federal ainda analisa os requerimentos relacionados ao benefício. “Foi publicada uma medida provisória, em novembro de 2025, para verificar quem realmente é pescador. Em alguns estados houve um aumento muito grande no número de pescadores cadastrados. Os demais estados já protocolaram os requerimentos e eles estão sendo analisados. Infelizmente, Mato Grosso ficou nessa situação. Se depender do Ministério do Trabalho, haverá celeridade no atendimento que o pescador merece”, explicou.
Ele destacou que o pagamento depende da liberação de recursos federais. “Tendo a dotação orçamentária, o pagamento pode ser resolvido imediatamente. Mato Grosso é o único estado que ficou nessa situação e precisamos trabalhar para resolver o passivo”, acrescentou.
A presidente da Associação dos Artesãos, Júlia Rodrigues, alertou para a necessidade de mobilização imediata das comunidades. “Temos que começar a gritar desde agora, não esperar acontecer. Há muito tempo estamos pedindo socorro pelo Rio Cuiabá. Precisamos dizer não para as hidrelétricas e cuidar do nosso patrimônio”, afirmou.
Já o secretário municipal de Obras de Cuiabá, Reginaldo Teixeira, ressaltou a importância do rio para a capital. “O Rio Cuiabá é fundamental para a nossa cidade e precisamos cuidar e preservar esse patrimônio. Estou à disposição para colaborar no que for necessário”, declarou.
O secretário municipal de Turismo e Desenvolvimento Econômico de Cuiabá, Luiz Fernando Medeiros, destacou que o turismo pode contribuir para fortalecer a economia das comunidades ribeirinhas. “O turismo é uma alternativa de renda importante. Não vemos conflito entre pescadores artesanais e pesca esportiva. O que precisamos é preservar o rio e valorizar a cultura das comunidades”, afirmou.
Também participaram da reunião o professor e ex-pescador Wises Antunes Corrêa e a presidente do bairro São Gonçalo Beira Rio, Cleide Rodrigues Moraes, que ajudou na organização do encontro. “Qualquer iniciativa que seja boa para nossa comunidade é bem-vinda. Agradecemos ao deputado Wilson Santos por visitar as comunidades ribeirinhas e ouvir nossa população”, declarou Wises.
Os moradores também lembraram que os impactos ambientais no Rio Cuiabá se intensificaram após a construção da Barragem de Manso, na década de 1990, situação que, segundo os pescadores, ainda provoca reflexos na atividade pesqueira e no equilíbrio ambiental do rio. Para Wilson Santos, a expedição tem justamente o objetivo de dar visibilidade a esses problemas e fortalecer o diálogo com as comunidades que vivem às margens do Rio Cuiabá.
Além da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, a comitiva da expedição é formada por representantes da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), da Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema), da Marinha do Brasil – por meio da Capitania Fluvial de Mato Grosso, do Batalhão da Polícia Militar de Proteção Ambiental, do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Cuiabá e da Associação do Segmento da Pesca de Mato Grosso (ASP-MT).
Fonte: ALMT – MT
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